Educação digital que transforma: o que aprendemos com os relatos reais de professores de todo o Brasil

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Educação digital que transforma: o que aprendemos com os relatos reais de professores de todo o Brasil

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Confira os momentos mais inspiradores, as metodologias aplicadas e as vozes de professores que participaram de nossas lives de compartilhamento de experiências em 4 e 5 de agosto de 2026

Falar sobre inteligência artificial, cyberbullying, privacidade, fake news e tempo de tela na teoria é uma coisa. Transformar esses temas em projetos vivos, envolventes e que dialoguem com a realidade de crianças e adolescentes na sala de aula é o verdadeiro desafio da educação contemporânea.

Para mostrar como a teoria se converte em prática transformadora, a SaferNet Brasil, em parceria com o Governo do Reino Unido (no âmbito do Programa de Acesso Digital), promoveu um encontro virtual de dois dias reunindo educadores da rede pública de sete estados brasileiros.

Mais do que uma troca metodológica, o evento demonstrou a força do projeto Disciplina de Cidadania Digital, que já alcança mais de 1.000 escolas, mobilizou 1.250 professores aplicadores, impactou mais de 145 mil estudantes e conta com mais de 50 mil educadores no curso de formação do ambiente AVAMEC/MEC.

Abaixo, reunimos os momentos mais inspiradores, as metodologias aplicadas e as vozes dos professores que estão liderando essa transformação nas escolas no ano em que a BNCC Computação e a Educação Digital e Midiática se tornaram obrigatórias para todas as escolas brasileiras.

Dia 1: da curiosidade infantil ao protagonismo técnico

Sob a moderação da psicóloga Bianca Orrico (SaferNet Brasil), o primeiro dia de lives destacou como a cidadania digital perpassa todas as etapas da educação básica — dos anos iniciais ao ensino técnico —, provando que o debate sobre o mundo virtual começa com o diálogo e com a escuta atenta.

1. Parintins (AM) — a curiosidade como investigação na ilha Tupinambarana

Profa. Mary Sônia Dutra de Alencar

A professora Mary Sônia Dutra de Alencar, da Escola Estadual Ministro Waldemar Pedrosa, mostrou como os temas digitais chegam às crianças dos anos iniciais antes mesmo do uso de computadores na escola. A partir de conversas cotidianas e boatos trazidos pelos alunos, ela estruturou uma sequência didática focada em ensinar "como pensar" diante da informação. As crianças produziram poesias, desenhos e até uma paródia no ritmo da toada do Boi-Bumbá.

"Uma das crianças começa: 'professora, isso é verdade?'. E foi assim que eu percebi que a cidadania digital (...) estava entrando na sala de aula não por uma tela, mas por uma pergunta. (...) Em vez de simplesmente eu responder se era verdade ou se não era verdade (...), percebi que eu poderia transformar aquelas situações em oportunidades de aprendizagens. Eu poderia ensinar as crianças não apenas o que pensar sobre aquela informação, mas como pensar diante delas."
Profa. Mary Sônia

2. Campos dos Goytacazes (RJ) — a "Caixa da escuta" contra o cyberbullying

Profa. Bruna Fernandes Gimenes

Trabalhando com turmas da educação infantil ao 9º ano na Escola Municipal Iniciação Agrícola José Francisco Mota Vasconcelos, a professora Bruna Fernandes Gimenes abordou os perigos do cyberbullying, a linguagem secreta dos emojis e a segurança em jogos online. Para dar vazão aos sentimentos e medos dos alunos que tinham vergonha de expor situações de violência online, ela criou a Caixa da escuta na biblioteca escolar.

"O digital não é uma dimensão paralela. Muitas vezes eles [estudantes] enxergam que o que acontece nos jogos, nas redes sociais, em grupos de mensagens é algo que fica apenas ali na tela. E a gente queria mostrar que não, que essas duas realidades estão ligadas o tempo todo. (...) O que você falar lá na tela (...) vai causar consequências reais. (...) Uma mensagem enviada por uma tela provoca dor real. Uma fotografia compartilhada gera exposição real. (...) É a importância da gente trabalhar essa educação digital com eles e tratar o ambiente virtual com a mesma gravidade (...) do pátio da escola."
Profa. Bruna Fernandes Gimenes

3. Tuparetama (PE) — do consumo passivo à autoria e edição crítica

Profa. Silvânia Maria da Silva Amorim Cruz

No sertão de Pernambuco, na Escola de Referência em Ensino Médio Cônego Olímpio Torres, a professora de língua portuguesa Silvânia Maria da Silva Amorim Cruz (em parceria com a profa. Juliana Cruz) desafiou estudantes do ensino médio a agirem como cientistas e editores. Usando plataformas como Padlet, pesquisas no Google Acadêmico e checagem de fontes, os estudantes analisaram a cultura do cancelamento, os vícios em jogos e a inteligência artificial, utilizando ferramentas de IA para auditarem os próprios textos contra o plágio.

"Se nós podemos investigar vírus, criar respiradores, então nós também podemos investigar a nossa vida online. (...) Ficamos felizes em perceber que alguns desses alunos saíram desse patamar de consumidor passivo e conseguiram de fato indícios de mudança, como sair do passivo para o curador crítico (...) de copiar e colar para verificar, auditar e editar."
Profa. Silvânia Maria Cruz

4. Bayeux (PB) — responsabilidade no código e nas redes

Prof. José Carlos Alexandre Soares

O professor José Carlos Alexandre Soares, da Escola Cidadã Integral Técnica Antônio Gomes, levou a cidadania digital para a formação técnica em informática. Ele abordou temas como viés algorítmico, responsabilidade legal de administradores de grupos de mensagem e a recuperação de dados excluídos para demonstrar a permanência das pegadas digitais. Inspirados pelas aulas, os alunos tornaram-se multiplicadores do conhecimento em escolas do ensino fundamental.

"Essa experiência mostrou que a educação digital (...) não pode ser confundida em meramente ensino de máquina, ensino de computador (...). Precisamos formar estudantes capazes de: usar, compreender, questionar, criar, participar e transformar. E principalmente compreender que toda tecnologia carrega uma consequência humana, social e ética (...) Por trás de toda tela existe uma pessoa, por trás de cada lado existe um direito, por trás de cada publicação existe uma responsabilidade."
Prof. José Carlos Alexandre Soares

Dia 2: autonomia, pensamento crítico e conexão com o território

Com moderação de Isabella Ferro (SaferNet Brasil), o segundo dia aprofundou estratégias transversais, dinâmicas desplugadas e o letramento midiático aplicado a diferentes realidades socioeconômicas, incluindo a educação do campo e a era da inteligência artificial.

5. Jacareí (SP) — "Curte, comenta e respeita"

Profa. Biana Silva Nascimento

A professora de história e projeto de vida Biana Silva Nascimento, da Escola Estadual João Feliciano, compartilhou sua experiência com a eletiva "Curte, comenta e respeita" para o ensino fundamental II. Utilizando simulação de estudos de caso reais (como o impacto de jogos de apostas online/Tigrinho e golpes em idosos), a professora enfatizou o papel preventivo da escola e o uso de metodologias desplugadas.

"A gente pensa que os nossos alunos, nossas crianças e adolescentes (...) sabem tudo sobre o mundo digital e na verdade tem algumas coisas que eles ainda estão conhecendo e precisam de nós adultos para poder trazer essas informações (...). O trabalho tem que ser um trabalho preventivo. (...) O professor que ainda não deu a aula dessa eletiva coloque para você: 'eu não preciso dominar tudo, eu vou aprender'."
Profa. Biana Silva Nascimento

6. Rio de Janeiro (RJ) — o "protocolo antibullying" e o combate às fake news

Profa. Cláudia dos Santos Lagame Lobo

No Colégio Estadual Afonso Pena, localizado no bairro do Andaraí, a professora de história Cláudia dos Santos Lagame Lobo integrou a cidadania digital ao itinerário formativo. Ela utilizou o infográfico "Acabar com o bullying #ÉDaMinhaConta" e a dinâmica "Eu já, eu nunca, eu vou", incentivando os estudantes a assinarem um compromisso pessoal de não serem plateia para a violência online.

"Eu entendo a disciplina de cidadania digital como um manual de sobrevivência no mundo digital (...). Eu sempre falo para os alunos: 'sem plateia não há bullying, porque a pessoa que pratica o bullying quer a plateia (...), quer quem apoia, quer quem aplauda aquilo que ela tá fazendo. Se você não é plateia, você tá fazendo com que aquela pessoa pare'."
Profa. Cláudia dos Santos Lagame Lobo

7. Brejo do Cruz (PB) — dilemas éticos, fanzines e roleplay

Profa. Débora Araújo de Medeiros

A professora de filosofia e sociologia Débora Araújo de Medeiros (Escola Cidadã Integral Técnica Professor José Olímpio Maia) utilizou o pensamento crítico filosófico para analisar os limites do uso do celular e os perigos da exposição íntima. Através da criação de fanzines (revistas artesanais) e de dinâmicas de roleplay (encenação de dilemas virtuais), os alunos do 3º ano atuaram como multiplicadores do debate para as demais turmas.

"Você faria isso com alguém que você ama? (...) Eu parto sempre desse pressuposto da empatia, dessa consciência, levar o ser humano a uma consciência não só presencial, mas principalmente digital e virtual. (...) A gente não sabe tudo de cidadania digital, mas a gente vai atrás (...) e vai trazendo esses aprendizados, principalmente trazendo o pensamento crítico para dentro da escola."
Profa. Débora Araújo de Medeiros

8. João Pessoa (PB) — "Vozes digitais" e o combate ao rage bait

Profa. Jéssica Lohayne Gonzaga da Silva Machado

Trabalhando com turmas de 3º ano do ensino médio na Escola Cidadã Integral Técnica Professora Maria do Carmo de Miranda, a professora de língua portuguesa Jéssica Lohayne Gonzaga da Silva Machado desenvolveu o projeto "Vozes digitais". Ela trabalhou gêneros textuais contemporâneos, redação para o ENEM focada em inteligência artificial, identificação de estratégias de manipulação (como o rage bait ou "isca de raiva") e organizou um debate fundamentado na comunicação não violenta (CNV).

"O foco principal dessa formação (...) foi deixar de o estudante ser um sujeito passivo daquelas informações e que ele pudesse se transformar num sujeito ativo e pudesse sim ter, além de criticidade, poder agir de forma ética e responsável no ambiente digital."
Profa. Jéssica Lohayne Gonzaga da Silva Machado

9. Seabra (BA) — protótipos comunitários na educação do campo

Prof. Reginaldo Silva Araújo

Diretamente da Chapada Diamantina, o professor Reginaldo Silva Araújo apresentou o trabalho desenvolvido no Colégio Estadual do Campo Filinto Justiniano Bastos. Equilibrando atividades plugadas e desplugadas, os estudantes utilizaram os smartphones não apenas para consumo, mas para investigar problemas reais de suas comunidades rurais (como poeira nas estradas e falta de postos de saúde), desenhando no papel protótipos de aplicativos comunitários de impacto social. Ganhador da 2ª edição do Prêmio Cidadania Digital em Ação, o professor Reginaldo aposta na conexão entre o digital e os problemas reais vividos pelos estudantes, que vêm de comunidades rurais e quilombolas.

"O adolescente percebe que o smartphone na mão dele não serve apenas para consumir um vídeo curto (...), mas é um instrumento potente de participação cidadã (...) para desenhar soluções locais. Ensinar sobre cidadania digital no campo (...) nos mostra que a tecnologia não precisa de telas de última geração para ser debatida de forma profunda. O essencial é o olhar crítico (...) do educador."
Prof. Reginaldo Silva Araújo

4 grandes lições da educação digital no Brasil

O cruzamento desses nove relatos revela aprendizados valiosos para qualquer rede de ensino ou educador que deseja iniciar essa jornada:

  • Não é preciso ser um "expert" em tecnologia: a mediação pedagógica foca na ética, no pensamento crítico e no comportamento humano. A parte técnica pode ser construída coletivamente.
  • O desplugado funciona (e é essencial): rodas de conversa, fanzines, cartazes, teatro de papéis e protótipos em papel são extremamente eficientes para desenvolver competências digitais, independentemente da infraestrutura de conectividade da escola.
  • Prevenção é o único caminho sustentável: tratar o cyberbullying, a desinformação e os riscos da inteligência artificial antes que as crises aconteçam constrói um ambiente escolar mais acolhedor e seguro.
  • O estudante como protagonista multiplicador: quando os jovens compreendem seu papel na rede, eles levam esse aprendizado espontaneamente para seus pares, suas famílias e suas comunidades.

Como fazer parte dessa rede?

Se você é professor da rede pública, sua escola também pode implementar essas ações gratuitamente:

  • Curso de formação gratuito no AVAMEC: inscreva-se no curso de formação autoinstrucional "Segurança e cidadania digital em sala de aula" (60h, com certificado pelo MEC no ambiente AVAMEC).
  • Materiais e guias de aula: acesse os cadernos de aula gratuitos e alinhados à BNCC e BNCC Computação, além de recursos prontos em cidadaniadigital.org.br.
  • Prêmio Cidadania Digital em Ação: faça sua inscrição no projeto para receber mentorias, participar de webinars e concorrer ao reconhecimento nacional e a uma viagem para o Dia da Internet Segura 2027 em São Paulo.

Contato para imprensa: imprensa@safernet.org.br

Publicado em: 10/08/2026

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