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  • Decreto sobre o Marco Civil aumenta os riscos à segurança e bem-estar de crianças e adolescentes do Brasil na Internet

    / Institucional / Segurança Digital / Por julianaalencar / 3 semanas 5 dias atrás

    A minuta de novo decreto presidencial que tem por objetivo regular o Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014) compromete os esforços nacionais e internacionais de desenvolvimento e aplicação de políticas e tecnologias de detecção de abusos e ilícitos, revertendo os avanços alcançados na última década para tornar a Internet um ambiente mais seguro e saudável para crianças e adolescentes. Assim como a minuta de decreto, alguns projetos de lei em tramitação no Congresso também querem proibir as redes sociais de removerem conteúdo sem decisão judicial, inviabilizando, na prática, o combate a comportamento abusivo e conteúdo nocivo nas redes.

    As plataformas são criadas para finalidades diferentes e elas devem ser transparentes sobre suas regras e aplicá-las com diligência, o que sabemos ainda ser uma realidade distante no que se refere especialmente ao contexto brasileiro e de todo o Sul global. No entanto, essas iniciativas regulatórias podem acabar permitindo que pessoas sigam violando essas regras, o que coloca crianças e adolescentes em risco. Além disso, as propostas ameaçam a segurança e os direitos dos usuários ao impedir a capacidade de um serviço de se adaptar a novos problemas. É o caso, por exemplo, de conteúdos que disseminam desafios perigosos ou exposição a conteúdos inadequados a determinadas faixas etárias. As plataformas devem poder adaptar continuamente seus produtos, regras e processos para ficar um passo à frente dos agentes mal-intencionados, garantindo transparência acerca de seu modus operandi. As políticas dos serviços e plataformas online, assim como as tecnologias, são documentos vivos, em constante evolução. Por isso, um rol de exceções também não seria capaz de endereçar em tempo real conteúdo prejudicial nas redes.

    O novo decreto engessa e paralisa o desenvolvimento dessas políticas inclusive ao limitar a utilização de tecnologias de detecção automatizada, desde a mais elementar, usada para correspondência de imagem (file hashing), passando pelas intermediárias baseadas em Visão Computacional e a mais inovadora, Inteligência Artificial, incluindo seu tipo mais avançado: Deep Learning. Essas tecnologias são usadas no mundo inteiro para reconhecer imagens de abuso sexual antes que sejam postadas e impedir sua viralização, detectar novas palavras-chave, sinais de coordenação e mapear redes e o modus operandi dos abusadores, muitas vezes impedindo que o ato criminoso ocorra.

    As crianças são revitimizadas pela circulação contínua das imagens de seu abuso. Dados internacionais revelam que em 2020 o NCMEC (Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas nos EUA) recebeu 33,6 milhões de imagens de abuso, das quais 10,4 milhões eram únicas, e 31,6 milhões de vídeos, dos quais 3,7 milhões eram únicos. Segundo o INHOPE (Associação Internacional de Canais de Denúncia, com sede na Holanda) 60% de todas os URLs avaliadas pelos hotlines (linhas diretas de denúncia), em 2020, vieram de material previamente avaliado, o que significa que o mesmo conteúdo está se espalhando pela Internet e é denunciado repetidamente.

    A minuta de decreto inverte o ônus para a vítima, ao obrigá-la a buscar uma ordem judicial para remover conteúdos que hoje são removidos voluntariamente pelas plataformas durante o processo de detecção de abusos e ilícitos. Os custos - financeiros, emocionais, de tempo, etc - serão suportados pela vítima, que será mais uma vez revitimizada ao ver o conteúdo viralizar enquanto aguarda uma liminar.

    O custo para o setor público também não deve ser negligenciado, com a explosão no número de processos judiciais desnecessários, sobrecarregando ainda mais o Poder Judiciário. Especialistas, empresas, entidades da sociedade civil e organismos internacionais concordam que para endereçar esses graves problemas é necessário investir, com absoluta prioridade, em educação para o uso ético, seguro e saudável da Internet, moderação de conteúdo pelas plataformas mais rápida e transparente, ferramentas de controle parental e pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias de detecção e resposta a situações de abuso, o que exige técnicas inovadoras de combate e prevenção.

    É importante ressaltar que durante a pandemia COVID-19 mais que dobrou o número de crimes sexuais contra crianças e adolescentes na Internet no Brasil. Dados da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, operada pela SaferNet Brasil e pelo MPF, apontam um crescimento de 102% no número de denúncias de abuso online de crianças e adolescentes em 2020, comparado a 2019. Houve também um aumento expressivo de pedidos de ajuda relacionados à saúde mental (ideação suicida e auto-mutilação), problemas com dados pessoais, exposição de imagens íntimas, cyberbullying, fraudes, golpes e spam.

    A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019, do CETiC.br/Comitê Gestor da Internet (CGI.br), aponta ainda que 43% das crianças e dos adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos viram alguém ser discriminado na Internet, e que 7% da população nessa faixa etária reportou ter se sentido discriminado na Internet. Outros conteúdos sensíveis, como cenas de violência ou com muito sangue (22%), formas para ficar muito magra (15%) - em sua maior parte conteúdos pró-anorexia e bulimia - e experiências ou uso de drogas (10%) também foram expostos a crianças e adolescentes, faixa etária que representa um terço dos 140 milhões de brasileiros com acesso regular à Internet.

    O uso de tecnologias de detecção automatizada por atores do setor privado para detectar, reportar e remover, voluntariamente, material de abuso sexual infantil, bem como ameaças baseadas em texto, como assédio e aliciamento, atende ao interesse público e social, conforme determina o artigo 227 da CF/88: “ É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

    Por isso é de fundamental importância um debate mais aprofundado sobre os graves riscos que o novo decreto e os PLs com teor similar representam para a garantia dos direitos das crianças e adolescentes, bem como sobre os seus impactos negativos ao reverter os avanços já constituídos em matéria de remoção de conteúdo nocivo e criminoso contra crianças e adolescentes nas redes.

    SaferNet Brasil
    Instituto WCF Brasil (Childhood Brasil)
    Instituto Alana
    Centro de Estudos Integrados Infância, Adolescência e Saúde (CEIIAS) Rede ESSE Mundo Digital
    Instituto Liberta
    InternetLab - Centro de Pesquisa em Direito e Tecnologia
    Instituto de Tecnologia e Sociedade - ITS Rio
    Associação pela Saúde Emocional de Crianças - ASEC Brasil

     

     

  • Moderação da SaferNet elimina ameaças de morte na live da Parada LGBT+ de SP

    Homofobia / Institucional / Crimes na Web / Por admin / 1 mês 2 semanas atrás

    A 25ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, realizada virtualmente no último domingo (6), poderia ter sido palco para haters, como chegou a acontecer na edição de 2020, mas a ONG Safernet -- à convite da Dia Estúdio, que transmitiu a parada -- fez uma moderação inédita de discurso de ódio em parceria com a empresa e reduziu a zero as mensagens com ameaças ou menções à morte na edição do evento deste ano.

    Ao todo, 13 canais transmitiram ao vivo a Parada LGBTQIA+ paulista. A experiência da Safernet foi realizada no canal da Dia Estúdio, o de segunda maior audiência na edição deste ano, com 360 mil visualizações, sendo superado somente pela plataforma do canal Diva da Depressão, com quase 431 mil visualizações.

    O intuito da Dia Estúdio ao procurar a Safernet, para além de monitorar as mensagens, denunciar e pessoas que entravam no canal do estúdio para disseminar discurso de ódio, era estruturar a moderação de conteúdo do evento e encaminhar corretamente comentários homofóbicos, racistas, preconceituosos e intolerantes.

    A Safernet usou o sistema de moderação do YouTube e ampliou o filtro para 874 palavras, acrescentando termos usados pelos haters em 2020. O resultado foi que nenhuma mensagem contendo ameaça ou menções à morte foi registrada no canal da Dia Estúdio entre os 59.147 comentários postados por 9281 usuários do YouTube que assistiram à parada pela plataforma.

    Na parceria realizada com a Dia Estúdio, a Safernet colocou à disposição o seu hotline de denúncias: denunciar.org.br para o qual foram enviados 101 comentários com mensagens homofóbicas - sem menção à morte - captados pela moderação humana e virtual da transmissão da parada, e que serão encaminhados às autoridades competentes.

    A moderação virtual e humana das mensagens de ódio contra a Parada LGBTQIA+ 2021 ocorre em um momento em que o hotline da Safernet registrou um aumento de 106,3% nas denúncias de conteúdo LGBTfóbico na internet. Entre 1 de janeiro e 15 de junho de 2021 foram 2529 denúncias únicas, contra 1226 no mesmo período do ano passado.

    A Safernet distribuiu ainda aos parceiros um miniguia para criadores de conteúdo sobre como lidar com discurso de ódio -- voltado ao público LGBTQIA+. O guia sugere que o discurso de ódio seja tratado pelo modelo 5 R´s: reportar, reduzir, remover, recompensar e responsabilizar.

    • reportar - denunciar o conteúdo de ódio nos canais corretos;
    • reduzir - diminuir o alcance do discurso de ódio, desmonetizando-o, se for o caso;
    • remover - tirar de circulação conteúdos que violem as políticas de discurso de ódio da plataforma;
    • recompensar - incentivar as vítimas de discurso de ódio a denunciar;
    • responsabilizar - aplicar a lei sobre quem espalha discurso de ódio.

    Para Juliana Cunha, diretora de projetos especiais da Safernet, “eventos com grandes audiências e muita visibilidade que podem causar reações polarizadas precisam incluir em seu plano de comunicação estratégias para responder ataques virtuais”.

    A experiência permitiu à Safernet concluir que é preciso também criar ferramentas que bloqueiem emojis e símbolos nas ferramentas de filtragem de palavras nas plataformas de transmissão.

  • Campanha "Denuncie. Não compartilhe"

    Pornografia Infantil / Comunicação / Crimes na Web / Por marcelo / 2 meses 2 semanas atrás

  • SaferNet e Facebook lançam a campanha "Denuncie. Não compartilhe"

    Pornografia Infantil / Comunicação / Crimes na Web / Por marcelo / 2 meses 2 semanas atrás

    Para promover a conscientização sobre a importância de denunciar conteúdo de abuso e exploração sexual infantojuvenil, bem como educar as pessoas para que não compartilhem este tipo de material, a SaferNet Brasil e o Facebook lançam a campanha “Denuncie. Não compartilhe”. O lançamento da campanha está alinhado com o Maio Laranja, mês que dá visibilidade ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em 18 de maio.

    A campanha levará às pessoas um vídeo educativo que aborda a melhor forma de lidar com um conteúdo que vitimiza crianças e adolescentes e alerta que o compartilhamento, mesmo com a intenção de expressar indignação, horror ou choque é ilegal e agrava a situação e causa mais dano à vítima. O vídeo orientará também sobre ferramentas existentes para realizar denúncias sobre material desta natureza, seja na internet, por telefone (como o Disque 100) e mesmo dentro das diversas plataformas.

    “A constituição brasileira determina que é dever de todos proteger as crianças e adolescentes e colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. A campanha nos lembra que a internet pode ser uma grande aliada na identificação de situações de abuso. Denúncias anônimas salvam vidas. Não se omita, não compartilhe, denuncie”, diz o presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares.

    Safernet tem canais de denúncia e apoio - A SaferNet Brasil oferece um serviço de recebimento de denúncias anônimas de crimes e violações contra os Direitos Humanos na Internet, contando com procedimentos efetivos e transparentes para lidar com as denúncias. Para enviar uma denúncia, basta acessar o denuncie.org.br. E as pessoas que buscam por apoio também podem contar com um canal online e gratuito, em canaldeajuda.org.br. O serviço oferece orientação sobre crimes e violações dos Direitos Humanos na internet, de forma anônima e sigilosa.

    “Trabalhamos com os principais especialistas em prevenção de exploração infantojuvenil para entender como e os motivos pelos quais as pessoas compartilham esse conteúdo ilegal. A campanha ‘Denuncie. Não compartilhe’ parte justamente do entendimento de que muitas vezes esse comportamento ocorre por falta de informação. Nosso objetivo é educar as pessoas na plataforma a denunciar os conteúdos da melhor forma, sem causar mais danos às vítimas,” afirma a gerente de bem-estar do Facebook na América Latina, Daniele Kleiner.

    Vale lembrar que o Facebook tem um sistema estabelecido de denúncia de qualquer material desta natureza encontrado proativamente ou reportado em suas plataformas para o Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC). Por sua vez, o NCMEC investiga e trabalha com as agências policiais em todo o mundo para ajudar as vítimas, inclusive autoridades brasileiras.

    18/05/2021

    Equipe Safernet Brasil e Facebook 

     

     

     

  • Denúncias de pornografia infantil cresceram 33,45% em 2021, aponta a Safernet Brasil

    Pornografia Infantil / Indicadores / Crimes na Web / Por marcelo / 2 meses 2 semanas atrás
    Entre janeiro e abril de 2021 foram denunciadas à Safernet Brasil 15.856 páginas relacionadas com pornografia infantil, das quais 7.248 foram removidas por indício de crime. O número mostra um crescimento de 33,45% nas denúncias em relação ao mesmo período do ano passado, quando 11881 páginas haviam sido denunciadas, das quais 6938 foram removidas. 

    Entre janeiro e abril de 2021 foram denunciadas à Safernet Brasil 15.856 páginas relacionadas com pornografia infantil, das quais 7.248 foram removidas por indício de crime. O número mostra um crescimento de 33,45% nas denúncias em relação ao mesmo período do ano passado, quando 11881 páginas haviam sido denunciadas, das quais 6938 foram removidas. 

    Ano passado, primeiro ano da pandemia de covid-19, a Safernet Brasil recebeu 98.244 denúncias anônimas de páginas de internet contendo pornografia infantil - recorde histórico desde que é feita a medição (iniciada em 2006). O número é mais do que o dobro (102,24%) em relação às 48.576 páginas reportadas por usuários da internet pela mesma razão em 2019. 

    “A pandemia provocou e continua a provocar mudanças abruptas na rotina das famílias. As crianças ficaram muito mais tempo online e expostas a situações de risco, agravado pelo fechamento das escolas, que sempre serviu como uma importante rede de apoio e prevenção a violência sexual”, afirma Thiago Tavares, presidente da Safernet. 

    Hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e a Safernet está participando de uma ação com o Ministério Público da Bahia e a rede social TikTok para a conscientização de adolescentes e jovens adultos sobre a importância do uso do celular para denunciar o abuso e a exploração sexual infanto juvenil. 

    Campanha - Com o mote “Dá para fazer muitas coisas pelo celular: inclusive quebrar o silêncio de uma violência sexual”, a campanha, que tem o apoio das cantoras Ivete Sangalo e Claudia Leitte, mostra que o telefone celular é um instrumento que possibilita acesso rápido e seguro aos canais de comunicação para a realização da denúncia. 

    Denúncias de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes podem ser feitas pelo whatsapp 61-99656-5008, pelo Disque 100 e pelos apps Direitos Humanos Brasil e Proteja Brasil. 

    Segundo dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), em 2020, o Disque 100 registrou 23.351 denúncias de violência sexual (estupro, abuso, assédio e exploração), um aumento de 23,4% em relação aos 18.911 registros de 2019.

    Segundo o MP da Bahia, foram registradas em 2020 757 notícias de fato (denúncias feitas por cidadãos) relativas à violência sexual contra criança e adolescentes. Segundo dados do Disque 100, a Bahia registrou, em 2020, 1.267 casos de violência sexual, contra 901, em 2019, um aumento de quase 40%. 

    Saiba mais - A Safernet é uma organização não governamental que promove a defesa dos Direitos Humanos na Internet no Brasil. A Safernet mantém a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos operada em parceria com os Ministérios Públicos. 

    Em 15 anos, a SaferNet Brasil recebeu e processou 1.759.354 denúncias anônimas de pornografia infantil envolvendo 429.665 páginas distintas, das quais 340.005 foram removidas por conterem indícios de crime e/ou violação dos termos de uso das plataformas.

    As denúncias foram registradas pela população por meio do hotline www.denuncie.org.br, que faz parte do grupo de 47 hotlines membros do INHOPE, associação internacional criada na Europa em 1999 para facilitar a cooperação e o intercâmbio de dados e informações sobre crimes e violações no ambiente digital em todo o mundo.

    18/05/2021

    Equipe Safernet Brasil

     

  • Nota sobre a cobertura de massacres em escolas

    / / Comportamento Online / Por admin / 2 meses 4 semanas atrás

    Esta semana vimos circular mais uma vez uma série de notícias, reportagens, postagens e também boatos com nomes, fotos e detalhes sobre o ataque a uma escola de educação infantil em Santa Catarina. Este episódio reabre novamente a questão se a maneira como atentados e massacres em escolas são noticiados podem influenciar a ocorrência de outros.

    A tendência da mídia em geral é concentrar seus esforços em desvendar o que se passa na cabeça do autor de um ataque, vasculhar sua vida, perfil nas redes sociais e todos os passos tomados para planejar o ataque. A audiência também por curiosidade busca saber detalhes do episódio, imagens, e principalmente sempre vem a pergunta do por quê e qual foi motivação para tal ato.

    Mas é um erro atribuir ao bullying ou aos games violentos os motivos para a ocorrência de uma violência dessa natureza. Primeiro porque nem toda vítima de bullying ou jogadores de games violentos estão propensos a cometerem os mesmos atos, segundo porque é preciso sempre informar às pessoas que o que faz alguém passar a um ato trágico como este é uma combinação complexa de fatores, não é possível atribuir uma causalidade única. Sabemos que o sofrimento e a angústia, especialmente dos familiares, faz com todos busquem respostas como forma de dar alguma explicação para uma dor que permanece indizível, onde faltam palavras. Por isso o momento é de respeitar esta dor e fazer uma cobertura responsável que preserve a identidade de todos os envolvido,

    Estudos da The American Psychological Association apontam que o tipo de cobertura da mídia é um fator que pode levar a mais ocorrências de ataques, o que se chama de contágio da mídia (media contagion), ou efeito copycat, que é quando o modo como é feita cobertura destes eventos inspira outras pessoas a cometeram atentados semelhantes. A pesquisadora Jennifer Johnston é categórica ao dizer que se formadores de opinião de veículos e redes sociais fizerem um pacto para não mais compartilhar, reproduzir ou publicar nomes, rostos, histórias detalhadas dos assassinos, poderemos ver uma redução dramática de novos casos.

    Mostrar nomes, materiais usados no planejamento dos ataques, site, grupos e fóruns de apologia à violência tem efeito tutorial e muito prejudicial. A exposição massiva na imprensa é o troféu para grupos que estimulam ataques violentos na internet. Assim, forma-se um círculo vicioso. Sites de projetos que defendem uma mudança na forma de relatar crimes como assassinatos em série, como o No Notoriety e o Don't Name Them, explicam bem como essa lógica funciona. 

    Por isso é tão importante que seja feita uma cobertura responsável que aponte para as questões de fundo envolvidas em mais este episódio sobre a violência nas escolas e qual é o papel de cada um, poder público, comunidade e imprensa para evitar que outros casos semelhantes aconteçam. 

    Recomendações para cobertura da mídia:

    • Não cite nomes das pessoas envolvidas, isso só aumenta a curiosidade e faz com que haja um culto a personalidade dos assassinos;
    • Não tonre o autor do ataque protagonista da notícia, conte as histórias das vítmas e de heróis anônimos que salvaram vidas em atentados;
    • Preserve a identidade dos envolvidos, o Estatuto da Criança e do adolescente garante o direito ao respeito da inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, e que abrange a preservação da imagem e da identidade da criança e do adolescente 
    • Explique que motivações são plurais e não determinadas por um único fator/episódio/aspecto isolado. Bullying, jogos violentos, grupos on-line, conflitos interpessoais e a "deep web" não transformam ninguém em um assassino, mas podem influenciar comportamentos e estimular radicalização;
    • Sempre que possível, dê visibilidade a programas educativos e ações de sucesso que promovem a convivência social e ambientes acolhedores para mediar conflitos nas escolas;
    • Mostre como denunciar e buscar ajuda ao identificar sinais e suspeitas;
    • Não espetacularize tragédias humanas.

    Pais e educadores também têm um papel importante. 

    Fique atento aos sinais de alerta em casa e na escola

    • Em geral, há preparação e sinais prévios;
    • Reações extremas e comportamentos agressivos repentinos em situações pontuais podem ser sinal de dificuldade de regulação emocional e controle da raiva;
    • Isolamento social, desconexão repentina com atividades escolares, mudança nos hábitos de sono e alimentação; 
    • Expressão de sentimento de perseguição e verbalização de planos de vingança (nas conversas na escola ou na Internet);
    • Fascinação e obsessão por armas, publicações de fotos e vídeos com exaltação do uso de armas; 
    • Pesquisas excessivas na Internet sobre ataques, tragédias e conteúdos de apologia à violência;
    • Glorificação de ataques e de atiradores;

    A tecnologia não tem culpa

    • O uso da criptografia é importante para garantir o direito à privacidade e a livre comunicação. Para o combate a crimes na internet e na chamada deep web, deve-se fortalecer mecanismos de investigação e a cooperação internacional entre autoridades.
    • Os jogos eletrônicos podem ter narrativas muito complexas. Mesmo que alguns abordem temas violentos e possuam personagens com condutas antissociais, não podemos estabelecer uma relação de causa e efeito entre jogos violentos e comportamento violento, especialmente ao considerarmos que são bilhões de jogadores que jamais comentem qualquer violência. Há classificação indicativa dos jogos para orientar as famílias e ferramentas de controle parental para limitar as interações entre crianças e adolescentes. 

    Prevenir para proteger

    • Alunos precisam ser educados para diferenciar zoeira de discriminação, intimidação e humilhação. Isso é educar para a cultura de respeito e cidadania; 
    • Investir em educação socioemocional é uma forma de investir em relações sociais mais saudáveis, logo mais seguras;
    • Ações de acolhimento e valorização da diversidade ajudam a construir ambientes mais saudáveis;
    • Crianças e adolescentes precisam de apoio para aprender a expressar suas emoções e sentimentos, incluindo aquelas que por ventura pratiquem bullying. 
    • É preciso garantir o cuidado com a saúde mental e emocional também dos educadores e profissionais das escolas;
    • Capacitar professores e oferecer recursos para implementação de ações de promoção de convivência pacífica como preconizado pela Lei 13.185/2015 e na própria LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação);
    • Estimular iniciativas de resolução pacífica de conflitos fortalece a solidariedade no contexto da escola, e atende às previsões das competências gerais da Base Nacional Comum Curricular.
    • Promover ações sobre uso seguro, responsável e crítico da Internet pode estimular rotinas digitais mais saudáveis entre os alunos e relações mais empáticas também no contexto do ensino remoto. 

    Se for o caso, denuncie:

    • Crimes de incitação à violência na Internet? Acesse www.denuncie.org.br
    • Crimes de incitação à violência fora da Internet? Acesse a Sala do Cidadão do MPF www.mpf.mp.br/sac

    As redes sociais e as principais plataformas online não permitem publicação de conteúdos de apologia à violência com ameaças a alvos ou planejamento de ataques. Denuncie postagens suspeitas. 

    Facebook

    Youtube

    Instagram

    Twitter

    Tik Tok

    Após tragédias como em Santa Catarina é muito importante criar espaços seguros para acolher o sofrimento dos sobreviventes e dos familiares. Que o triste episódio estimule a criação de mais iniciativas de promoção da cultura de paz.

    Equipe SaferNet Brasil

    07/05/2021